Tuesday, October 10, 2006

Eternidade


Miguel Torga(Portugal, 1907-1995)
Eternidade
Coimbra, 4 de Outubro de 1945.
A vida passa lá fora,Ou na pressa de uma roda,Ou na altura de uma asa,Ou na paz de uma cantiga;E vem guardar-se num versoQue eu talvez amanhã diga.
In “Diário III”

Entre os teus lábios


Entre os teus lábios
Entre os teus lábiosé que a loucura acode,desce à garganta,invade a água.
No teu peitoé que o pólen do fogose junta à nascente,alastra na sombra.
Nos teus flancosé que a fonte começaa ser rio de abelhas,rumor de tigre.
Da cintura aos joelhosé que a areia queima,o sol é secreto,cego o silêncio.
Deita-te comigo.Ilumina meus vidros.Entre lábios e lábiostoda a música é minha.
de «Poesia e Prosa», O Jornal/Limiar, Lisboa, 1990
Eugénio de Andrade

Tuesday, October 03, 2006

Vindima


Vindima

Mosto, descantes e um rumor de passosNa terra recalcada dos vinhedos.Um fermentar de forças e cansaçosEm altas confidências e segredos.

Laivos de sangue nos poentes baços.Doçura quente em corações azedos.E, sobretudo, pés, olhos e braçosAlegres como peças de brinquedos.

Fim de parto ou de vida, ninguém sabeA medida precisa que lhe cabeNo tempo, na alegria e na tristeza.

Rasgam-se os véus do sonho e da desgraça.Ergue-se em cheio a taçaÀ própria confusão da natureza.

In “O outro livro de Job”

Miguel Torga
(Portugal, 1907-1995)

Donde vêm?


Donde vêm?


Donde vêm? De que rosto, de que estrela?

Apenas uma arde no vento. As outras, fico a ouvi-las escorrer da pedra.

Apenas uma em silêncio brilha. As outras mordem um coração de homem.

Só prometido à terra.

Eugénio de Andrade

Monday, October 02, 2006

Infância


Infância


Lamego, 5 de Outubro de 1946
Já uma vez tentei escrever da minha meninice passada aqui, mas não fui capaz de coisa de jeito. A infância não se repete, nem na lembrança, nem na imaginação. Quando muito, dá-se outra infância. As cenas ingénuas, porque eram ingénuas, não tinham consciência; e as humilhações, de tão pungentes, não há memória que consinta na sua perfeita expressão.

Miguel Torga
(Portugal, 1907-1995)

In “Diário IV”

Pois eu gosto de crianças

Pois eu gosto de crianças


Pois eu gosto e crianças!
Já fui criança, também...
Não me lembro de o ter sido;
Mas só ver reproduzido
O que fui, sabe-me bem.

É como se de repente
A minha imagem mudasse
No cristal duma nascente.
E tudo o que sou voltasse
À pureza da semente.